quarta-feira, 5 de maio de 2010

Música - Polêmicas no Supertramp e Discografia Comentada

Texto e ilustrações: Rafael Senra


O presente texto trata de uma banda que está entre as prediletas do conviva que vos escreve, SUPERTRAMP, e se desmembra em dois momentos. Primeiro, vou falar um pouco de recentes picuinhas entre os antigos líderes da banda, Roger Hodgson (que se apresenta no Brasil em maio, dia 15 em BH) e Rick Davies. Especulo que, em português, estas informações estão saindo no ESPARSO SIDERAL em primeira mão. A este trecho, segue a discografia da banda recomendada por mim.

Se você não sabe nada sobre a biografia e a história do Supertramp, saiba que neste texto você vai continuar não sabendo. Mas vou dar uma colher de chá e te indicar um superlink.  
A recente polêmica entre Hodgson e Davies não tem muito de novidade, em essência. São apenas fatos antigos, que somente agora foram revelados em público, mais precisamente numa entrevista recente de Roger, que comenta sobre a nova tour do Supertramp 70-10, e aproveita para “descascar” Rick Davies em diversos momentos. (se quiser lê-la no original, siga por aqui). 



O ponto fundamental da entrevista baseia-se em um acordo que teria sido feito entre Roger Hodgson e Rick Davies, na época em que o primeiro saiu da banda. Rick permaneceria com o nome “Supertramp”, mas não tocaria as canções de Roger em shows. Infelizmente, foi um acordo selado apenas com um aperto de mãos e um olhar, e nada foi escrito. Rick teria cumprido o acordo na tour do disco Brother Where you Bound; porém, incluiu várias canções de Roger na tour subseqüente.

Hodgson disse que confiou em Rick, já que foram colegas de banda por 14 anos, mas se sentiu imensamente traído ao perceber que suas músicas estavam sendo tocadas nos shows. Ele acusa esse fator como o estopim para a saída de Dougie Thompson da banda, que teria sentido que “aquilo era errado”.

Roger vive atualmente na Califórnia, e lá existe uma lei que considera acordos verbais como algo tão sério quanto acordos por escrito. Apesar da possibilidade de processo, Roger diz que não pretende levar por esse lado, e que manteve silencio sobre isso esses anos todos pensando no público, e não em Rick. Entretanto, o fato dele tocar em países pelos quais a tour do Supertramp eventualmente passa, com ambos os shows contendo as mesmas músicas, é para ele algo “ultrajante”.

Para o compositor de canções como The Logical Song e Dreamer, o fato de ter outro cantor a interpretar canções alheias (ele menciona Mark Hart, que vinha tocando e cantando com o Supertramp. Contudo, Hart não participará dessa nova tour) é uma ofensa ao legado da banda, que Roger luta para manter intacto, mas que não percebe uma recíproca por parte de Rick.

Reiterando a admiração pelo compositor que é Rick Davies, Roger não entende o motivo pelo qual suas canções são readmitidas ao repertório da banda, já que Rick teria composto uma série de grandes músicas, várias delas hits conhecidos. “(...) muitas bandas saem em tour com apenas um ou dois hits. E ele (Rick) fez ‘Bloody Well Right’, ‘Goodbye Stranger’, ‘Rudy’, ‘Crime Of The Century’ … ele tem feito grandes canções”, diz.

Roger nunca tocou músicas de Rick em sua carreira solo, e diz que se o fizesse, isso o tornaria uma mera cover band. Mas o aspecto mais irônico disso tudo, é que Davies não gostava de várias composições de Roger. “Ele é um velho ‘jazz’ e blueseiro. Lutou comigo como um louco por causa da (música) ‘Breakfast in America’. Ele odiou essa música. E não sei porque ele a vem tocando. Eu tive que lutar por muitas das minhas músicas porque ele não gostava delas.”

Mas o pior é que mesmo ofendido, Roger havia manifestado um interesse em participar da nova tour do Supertramp. Queria fazer isso pelos pedidos dos fãs. Ele teria manifestado isso ao agente da banda, e sugerido a possibilidade de participar de alguns shows em algumas cidades. “Infelizmente, a reação me atordoou, porque ele disse ‘isso nunca vai acontecer. Isso não beneficiará o Supertramp, irá beneficiar apenas Roger Hodgson”.

“Basicamente, eu somente queria fazer isso porque os fãs adorariam ver isso acontecer, seria a ultima chance de fazer isso acontecer e ver os fãs felizes. É triste que duas pessoas não possam fazer isso juntas. Musica é supostamente para manter as pessoas unidas”.

Roger Hodgson irá tocar na Alemanha dia 6, e iniciar uma tour na América do Sul a partir do dia 11, com vários shows agendados no Brasil. Rick Davies e o Supertramp vai iniciar sua turnê européia em Hally, na Alemanha, dia 2 de setembro.

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Supertramp – Discografia Comentada

Por Rafael Senra
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1970 - Supertramp – O primeiro disco dos caras é um dos vinis que mais encontro em sebos por aí. Para mim, a explicação é simples: ele é muito ruim. Mas conheço muita gente que acha ele sensacional. Considero este um disco clichê da época, um sub-progressivo de quinta. Não pertence ainda a fase altamente recomendada da banda, que consiste de 4 discos +1.

·  1971 - Indelibly StampedAqui, a evolução do Supertramp já se faz notar pela capa: aquela florzinha mal desenhada do debut deu lugar a essa foto sensacional de Rusty Skuse, que já foi a mulher mais tatuada da Inglaterra. É o disco mais rocker da carreira deles, e para mim, o ponto alto para mim vem de Roger Hodgson, com duas obras primas: Travelled, e Rosie Had Everything Planned.

·  1974 - Crime of the Century – Aqui começa a fase altamente recomendada. Neste e nos próximos três discos, simplesmente o Supertramp não tem sequer uma música ruim. O disco não é temático, mas começa e termina com o mesmo som distante de gaita, e com os clássicos School e a faixa título. Talvez seja oportuno aqui comentar sobre a faixa “injustiçada” do álbum: If Everyone Was Listening, maravilhosa! E Rudy é um épico emocionante. O resto é eufemismo.
Antes que esqueça: é o disco do megahit Dreamer.

·  1975 - Crisis? What Crisis? – Disco mais discreto e modesto que o anterior. Mas não se deixe enganar: os caras mantiveram o nível. Se a grandiloqüência deu lugar a canções quase casuais, como Easy Does It ou Just a Normal Day, isso só evidencia a capacidade deles de diversificar sem apelar para mudanças radicais. Meus momentos preferidos são as duas que comentei acima, mais o solo de sax em The Meaning. É um disco de poucos hits: só vingou mesmo Ain't Nobody But Me, mas acredite, isso não quer dizer nada.

·  1977 - Even in the Quietest Moments – Este disco retoma a pompa de Crime of... , com suas orquestrações e canções longas. Hodgson contribui com a faixa título, dois épicos (Babaji, inspirada no guru indiano Osho, e Fool's Overture, esta simplesmente uma obra prima de te fazer chorar de tanta beleza) e um agitado tema folk a la Supertramp (o hit Give a Little Bit). Davies responde com grandes músicas, mas menos inspirado (Fool’s... humilha), com a correta Lover Boy, a bela Downstream e o hit From Now On.

·  1979 - Breakfast in America – Senhores, eis a última obra prima desta grande banda (apesar do posterior ser também muito bom). Esse grande sucesso de vendas do Supertramp é lotado de hits arrasa-quarteirão, como a faixa título, Goodbye Stranger, Take the Long Way Home, e claro, o hit perfeito: The Logical Song. Aqui, o teclado marca registrada da banda, o Wurlitzer, ausente no disco anterior, faz a cama para as canções. Vale lembrar que é o disco-estopim dos conflitos entre os gênios Hodgson/Davies, e aquele que evidencia ainda mais a diferença entre eles (a espiritualidade folk de Roger versus as baladas e temas jazz/bluesy de Rick).

·  1980 - Paris – A década de 80 abre com esse irrepreensível disco ao vivo. E olha que detesto discos ao vivo! Paris foi uma resposta do Super aos críticos que acreditavam ser impossível reproduzir a complexidade das canções em estúdio para uma platéia (e certamente, o sucesso deste álbum duplo deve ter calado a boca deles). Pena que não saiu em DVD (o show foi filmado, mas os rolos foram encontrados recentemente na casa do baterista Bob Siebenberg em estado lastimável, mofados, e sabe lá o que farão com elas).

·  1982 - ...Famous Last Words... – O canto do cisne de Roger Hodgson no Supertramp é, no mínimo, um disco digno. Numa audição rápida, percebe-se que o alto nível dos anteriores não está mais presente. Mas é o disco de cabeceira de muita gente, graças a músicas como Crazy, os hits It’s Raining Again e My Kind of Lady, dentre outras.

·  1985 - Brother Where You Bound – A volta do Supertramp pós-Hodgson é marcada por um glacê excessivo, muita pretensão, e poucos hits. Numa época em que a estética radiofônica imperava, os caras lançam um disco com uma música que ocupava um lado do vinil (eles aprenderiam a lição no disco seguinte, porém, com a façanha de estarem menos inspirados que neste Brother...). Dúvida: Será que Cannonball pode ser chamada de hit?

·  1987 - Free as a Bird' – Aqui, os excessos dão lugar a curtas e acessíveis canções. Pena que a criatividade havia minguado (vale lembrar que, sem dúvida, os discos solo que Hodgson lançou na década de 80 são muito melhores que os do Supertramp na mesma época). Não é um disco chato, mas também não apresenta nada de brilhante. Dá pra ouvir num fim de semana enquanto cozinha (isso se você ainda suporta os timbres oitentistas. Eu gosto).

·  1988 - Live '88 – Já ouviu um disco na sua vida que você pudesse chamar de “horrível”? É este. É nesta tour que Davies rompe seu “pacto” com Roger, e toca (pessimamente) suas músicas. A falsidade que a banda se tornou é evidente. Talvez por isso eles acabaram.

·  1997 - Some Things Never Change – Depois de uma década, o dinossauro ressuscita. Vários amigos meus gostam desse disco. Eu o respeito. Me lembra momentos legais da minha adolescência, mas não posso dizer que é bom. Não parece Supertramp: estaria mais para um sub-jazz com acento pop. Tem algumas músicas até legais, como You Win, I Lose e a faixa título.

·  1999 - It Was The Best of The Times – Um disco ao vivo bem melhor que o Live 88. Talvez por ser duplo, tem a pretensão de ser um pós-Paris. Mark Hart mostra que tem muita técnica no vocal e pouca expressão e carisma (gosto do Hart mesmo é no Crowded House, banda australiana da qual ainda falarei no blog).

·  2002 - Slow Motion – Até agora, é o último de inéditas do que um dia foi o Supertramp. Tem alguma coisa audível, como a faixa título, Little by Little e Over You. O resto, esqueça.

6 comentários:

Talles azigon disse...

Sou um fã da Cultura-arte-poesia-nadaparafazerdevezenquando

então te seguindo. escreves muito bem, com fundamentação. parabéns

Karla Hack disse...

Adorei a análise da discografia, ainda mais para os leigos em Supertramp! Eu conheço poucas músicas, mas as que conheço gosto!
Parabéns pela diversidade do blog!

eu... disse...

seu blog ta show d bola
tendo um tempo da uma passadinha no meu


http://drehluvz.blogspot.com/

Anônimo disse...

Por favor, qual é o nome do atual saxofonista e multi-instrumentista de Roger Hodgson ??

Rafael_Senra disse...

Anônimo, boa pergunta... se ficar sabendo, posto por aqui.

Estive no show do Hodgson ontem, em BH, e realmente, o saxofonista e multi-instrumentista que tocou com ele é muito bom. Aliás, a banda toda é muito afinada. E Roger tá muito em forma, bem melhor que muita gente de sua geraçao (incluindo os colegas do Supertramp).

Sandro Abecassis disse...

O ao vivo de Paris tem é DVD sim