terça-feira, 20 de abril de 2010

Música - Cajuína (Caetano Veloso) – Uma leitura possível

Texto: Thato Lira (email - My Space)
Ilustração: Rafael Senra


 
Certo dia, voltando para o hotel, numa dessas muitas andanças que fazemos por aí, acho que estávamos na cidade de Pirapora, MG, eu e minha namorada começamos a cantarolar os versos da música Cajuína. Na medida em que passeávamos pela melodia também nos intrigávamos com os enigmas contidos nos versos dessa música. Enquanto a cantávamos repetidamente também nos demorávamos dissecando suas palavras, suas metáforas e suas rima. Lembro-me de minha namorada ficar intrigada com a forma verbal EXISTIRMOS e eu ficar intrigado pela marcação rítmica na métrica das silabas poéticas. No meio daquelas muitas interrogações, ela me pediu pra anotar aquelas idéias e enviar por escrito essa análise que fazíamos. Aceitei a sugestão e o desafio de escrever essa leitura interpretativa que apresento aqui e que nasceram daquelas nossas primeiras indagações.


           Essa é uma leitura pessoal, das muitas possíveis dos versos de uma das canções mais belas já escritas por Caetano Veloso. Gravada originalmente em 1979 para o disco Cinema Transcendental, a canção Cajuína sempre me fascinou na mesma medida em que me intrigava. Não só pela beleza de seu arranjo que expressa um lamento nordestino explícito no “choro” da sanfona, mas também pelo hermetismo de seus versos heróicos, transcendentais como o título do disco de que faz parte. As indagações poético-filosóficas que emanam da insistência do som de uma única rima empilhada em seus versos que se repetem, dando essa sensação de um movimento circular, quem sabe sugerindo o eterno retorno?

            Não pretendo explicar a canção, numa tentativa de traduzir seus versos e desnudar a composição, nem tampouco quero me desdobrar em uma teorização estéril, mas realizar uma interpretação subjetiva, embasada numa sensibilidade crítica de cunho bem pessoal.

Vejamos:

Existirmos a que será que se destina?

            A primeira palavra do verso inicial da canção, existirmos, pode ser lida como a forma infinitiva pessoal do verbo existir. Embora o infinitivo seja uma forma neutra no que diz respeito às categorias gramaticais de tempo, modo, número, pessoa, etc, essa forma verbal pode expressar pessoa e número nas chamadas formas infinitivo pessoal ou flexionado, entretanto a desinência (terminação verbal) do infinitivo pessoal é a mesma do futuro do subjuntivo.

            Prefiro crer que Caetano usa a primeira palavra do primeiro verso da canção no modo subjuntivo e não no infinitivo flexionado. O Subjuntivo é o modo verbal que expressa uma ação incerta, inacabada, uma ação que está para se realizar. Ao contrário do modo indicativo o modo subjuntivo expressa uma dúvida e não uma certeza.

            O verso continua com a interrogação duvidosa sobre o destino e o destino de certa maneira se liga a idéia de futuro. Se Caetano preferisse o indicativo e usasse EXISTIMOS ele estaria indicando a certeza de uma existência no presente. Enquanto que o futuro do subjuntivo de EXISTIRMOS reforça a idéia da imprecisão e da incerteza ligada à própria noção de futuro e que encontra ressonância na indagação existencial no restante do verso “a que será que se destina?”

            Sobre essa interrogação podemos dizer que ela não é uma questão que exige resposta. É uma indagação a acerca da própria condição humana de buscar o sentido da existência. Ao retornar ao início a cada vez que a canção se repete um novo ciclo se inicia e as eternas indagações humanas: onde estou? Para onde vou? Recomeçam e tornam-se a repetir

Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina

            Essa seqüência de versos nos apresenta uma afinidade entre dois indivíduos marcados subjetivamente por um eu e por um tu que juntos, através do gesto com a flor, fazem alusão a um terceiro indivíduo, o menino infeliz.

            A flor é por excelência o símbolo da efemeridade e ligeireza da vida. Quando oferecemos a flor a alguém, o que fica marcado é gesto simbólico de agradar a uma pessoa querida, pois a flor é perecível, frágil, finita. Essa fragilidade da rosa pequenina, não desabrochada da canção, simbolicamente representa a sina do menino infeliz ou seja um jovem ainda de vida não desabrochada, a quem fazem alusão os dois sujeitos, sendo sua sina, representada na rosa, o elo entre os dois intelocutores, o eu e o tu da canção.         

            O menino aparece envolto num espectro de luz e sombra, representado em uma imagem que não se ilumina e não se escurece (turva), e permanece pairando na serenidade do ocaso, no lusco-fusco de sua sina que não esclarece nem a si mesma, nem aos outros dois sujeitos (não se nos ilumina). O menino é o elo misterioso, o segredo apenas compartilhado entre o eu e o tu. Se pudéssemos responder quem são o homem lindo (tu) e o menino infeliz, teríamos a chave do enigma da canção.

            A sina do menino infeliz e a substância de sua vida tão fina são de uma transparência opaca que traz na lágrima ao mesmo tempo sua claridade e penumbra. A força e a resignação características da lágrima nordestina que é sublimada pela resistência e firmeza desse povo estão reveladas nesse lamento em que essa mesma lágrima não se mostra, nem se esconde, todavia aceita o destino como a conseqüência de EXISTIRMOS, sendo, portanto o acaso da sina de uma vida que é delicada, sensível frágil constituída por sua matéria tão fina, frágil.

E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

            O uso do verbo com o pronome reflexivo em não se nos ilumina aparece também em olharmo-nos intacta retina. O verso anterior traz uma reflexão entre os sujeitos e uma auto-reflexividade pelo uso da partícula se, já no segundo a reflexividade se dá entre os dois sujeitos espelhados no momento em que se entreolham refletidos na intacta retina ao mesmo tempo em que se vêem também refletidos no licor de transparência cristalina feito de caju, tradicional bebida do estado cuja capital é Teresina.


Thato Lira é cantor e compositor. Formado em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto e mestre em teoria literária e crítica da cultura pela Universidade Federal de São João Del Rei.
http://thato-lira.blogspot.com.br/
www.myspace.com/thatolira
thatolira@hotmail.com  

4 comentários:

Fred disse...

Sempre fui encantado pela beleza dessa música. Quando vi o próprio Caetano Veloso falando da origem da letra nessa entrevista http://www.youtube.com/watch?v=S5NxSwkwx-o a canção se tornou ainda mais bela.

Caio d´Arcanchy disse...

Essa poesia conta a história da visita que Caetano Veloso fez ao pai de Torquato Neto quando este suicidou-se. Caetano foi recebido pelo pai do poeta, o homem lindo da canção, e conversaram sobre Torquato, o menino infeliz.

Rafael_Senra disse...

Belos e enriquecedores comentários, Fred e Caio!

Anônimo disse...

Que analise tao bem feita e sensivel!! Complementa de maneira excepcional e valorosa a cancao de Caetano. Sempre fui encantado com essa cancao, letra e musica. Com essa analise, me possibilita admira-la com ainda mais razao.