quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ensaio - Lacunas


Texto: Rafael Senra (escrito em 11/02/2009)

Estive pensando em quantas pessoas produziram em minha vida lacunas que nunca poderei saber - na minha vida e na de tantas outras pessoas. Lacunas que vieram de todos aqueles que não seguiram seus instintos, seus sonhos, aqueles que deixaram de dizer algo, que falaram demais, que se deixaram levar, que levaram inocentes consigo. As obras de arte que nunca viram a luz do dia, a certeza imortalizada da ação, o filho que não nasceu.



Fico imaginando se ídolos meus como Lennon e McCartney não tivessem trilhado o caminho da música, e resolvessem ser marinheiros ou operários, que era o destino certo para quase todos os liverpoolianos da época. Ou se o Milton Nascimento não tivesse ouvido os apelos do Márcio Borges para começar a compor canções, e continuasse sendo somente mais um crooner, pelos bares anônimos de Minas Gerais. Fico pensando quantas lacunas existiriam – e o pior, nunca nos daríamos conta disso.

Voltando ao Lennon... O que seria de nossas vidas hoje em dia, se ele não tivesse morrido? Claro, provavelmente estaríamos fazendo algo parecido com nossa rotina atual, mas com uma pequena diferença que nos faria um pouquinho mais feliz. E nem temos um parâmetro para comparar, pois é impossível relacionar uma presença com uma ausência. A condição da existência de uma é que a outra não esteja ali.

Hoje comprei um artesanato de uma amiga minha, um arranjo para pendurar na parede. Ao lado dela, estavam amigos que jogam malabares pela faculdade. Fiquei pensando como seria se aquela menina simpática não estivesse ali vendendo aquilo, ou se os amigos dela não estivessem ali jogando malabares. É verdade que a faculdade não nasceu com todas estas pessoas por ali, e nem depende desse tipo de detalhes para existir. Mas, caso estas pessoas não estivessem naquele local compartilhando seus talentos, haveria uma lacuna. E aqueles que vivem ao nosso redor nunca saberiam disso.


Nunca saberemos se o nosso vizinho tiver composto músicas belíssimas, mas resolveu engaveta-las por qualquer motivo. Falando em música, ouvi dizer que o compositor clássico Sebastian Bach foi ignorado durante anos, pois suas composições eram muito diferentes das que eram feitas na sua época. Hoje em dia, ele é uma referência básica em músicas instrumentais e clássicas, e é difícil pensar na história da humanidade sem pensar em suas obras. Entretanto, vivemos todos por muito tempo sem a presença deste legado.

Me surge a mente mais um exemplo, este bem familiar a cidade onde moro. A simples menção do Cine Glória, uma rede de dois cinemas que funciona aqui em São João Del-Rei, causa nos moradores daqui relações de amor e ódio. As pessoas da cidade reclamam que o som dele não é bom, as poltronas dão dor nas costas, os filmes saem de cartaz muito rápido, a imagem é achatada... ouço comentários deste tipo com freqüência. O que as pessoas não pensam, é em como é um privilégio que exista um cinema em funcionamento na cidade. Em Ouro Preto, cidade que tem uma média de 15 mil a 20 habitantes a mais que São João, não há cinema. Aqui, ele existe pela perseverança do senhor Lilinho, que o mantém na ativa há mais de 60 anos.

Eu talvez poderia estar, neste momento, me divertindo com alguma pessoa, ou com um filme, um disco, enfim, compartilhando de alguma coisa que nunca saberei o que é. Talvez pela omissão de alguém, deliberada ou não, por desencontros, caminhos que não se cruzaram, por motivos desconhecidos ou que sequer existem. Só sei é que nossa vida é repleta de lacunas, que nunca conseguiremos mensurar a proporção, por não sabermos como seriam as coisas caso o imaterial se materializasse.

3 comentários:

Dez Pras Oito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
juniapereira disse...

Isso me lembra o capítulo 84 de "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Aliás, se ainda não conhece este livro, isso é uma lacuna...rs

Michelle Lima disse...

Mto bom o seu texto...
Iamgine se eu não o tivesse encontrado por aqui? Mais uma lacuna...
Parabéns pelo blog! Abraço^^