terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ensaio - Dissolver o quê??



Texto: Rafael Senra
rararafaels@yahoo.com.br
Imagem: auto-retrato, de Pablo Picasso

Não vou dizer "atualmente", mas já faz um tempo que andam surgindo um bocado de artistas metidos a experimentais. Não vou citar nomes, porque de tantos nomes pipocando por aí, o leitor certamente irá imaginar alguns exemplos.

E o mesmo leitor há de concordar que ele mesmo já se pegou pensando - depois de ouvir um disco cheio de ruídos e distorções ou de ir em uma exposição de sacos plásticos ou privadas vendidas como arte – algo do tipo "poxa, mas será que isso é algo realmente bacana, ou é um atestado de falta de talento?"

Pensando nisso, é que escrevi o presente texto, onde comparo a obra de uma banda e um cineasta que ficaram conhecidos como "experimentais", mas que, no pé da página de suas carreiras, há exemplos belíssimos de obras lineares e impecáveis, coesas e sem nenhuma afetação. Ou seja...

É preciso saber construir para poder desconstruir?

 Conhece essa capa ao lado? É de um álbum clássico da história do rock, In the Court of the Crimson King, da banda britânica King Crimson. Ele foi um dos primeiros discos a prenunciar o gênero que viria a ser o rock progressivo, e lançou clichês que seriam seguidos a risca por muitas e muitas bandas nos anos seguintes.

Mas ao ouvir os discos seguintes do Crimson, como Starless and Bible Black, Lizard, ou principalmente a porrada sonora de Red, comprova-se que a própria banda resolveu não seguir a (bem sucedida) estética de som do seu início.

Na verdade, o que a banda do guitarrista Robert Fripp (único integrante do KC desde o início) fez nos anos seguintes até a atualidade, foram seguidos exercícios de desconstrução de estilos como a música clássica e erudita, jazz, hard rock e metal, folk, além do próprio progressivo.

Com essa atitude radical, conseguiu fãs fiéis, e vários outros detratores. Irônico é imaginar que Greg Lake, vocalista e baixista da primeira formação do Crimson, sairia para montar o Emerson, Lake and Palmer (foto abaixo), a principal banda a difundir os clichês sonoros que o KC desacralizaria posteriormente.

Ao observar a carreira solo de Fripp, percebe-se que ele criou uma corrente alternativa dentro do próprio gênero progressivo, uma espécie de art-rock avant-garde repleto de experimentalismo - visto suas parcerias com Peter Hammill (Van Der Graaf Generator) e Peter Gabriel (ex-Genesis). Além de outros parceiros ilustres que flertavam com o pop e experimentalismos como David Bowie, Brian Eno, e Andy Summers.

O certo é que mesmo sendo eu um apreciador mais de obras de caráter mais, digamos, construídas, em vez de artistas desconstrucionistas como os citados acima, sempre gostei do King Crimson, e nunca pensei muito a respeito disso. Até que outro dia, em uma conversa informal com amigos (daquelas em que surgem grandes insights e idéias), percebi o porque de gostar da banda, ao fazer uma analogia com o filme Homem Elefante, do diretor americano David Lynch.

 A carreira de Lynch se assemelha a de Fripp/King Crimson em um ponto: uma obra quase toda dedicada a desconstruir os cânones de seu gênero. Quase toda a obra, eu disse. A filmografia de Lynch tem, que eu me lembre, dois filmes "normais", que seriam o Homem Elefante, e um mais recente, Straight Story, que saiu no Brasil com o insípido nome de Uma História Real.

Os dois filmes lineares do Lynch estão no meu top 10 de cinema de todos os tempos, assim como músicas do Crimson como I Talk to the Wind, Epitaph, Matte Kudasai e Walking on Air estão no meu top-prog supremo.

Na verdade, artistas como esses dão uma lição na geração atual, que é bem chegada em experimentalismos gratuitos. Não vou citar nomes, senão este texto vai ficar gigantesco de tantos pseudos dados a experimentações diversas.

Mas o que eu percebi ouvindo In the Court... ou assistindo Homem Elefante é que para desconstruir, é necessário saber construir. Outra analogia: já viu um médico que abre um corpo sem antes saber de anatomia? Vai dar merda. É meio por aí meu raciocínio.

A geração atual de artistas que se mete a experimentações parece já começar a trajetória pelo ponto final, depois de ter pulado o início. Talvez até saiam algumas coisas interessantes disso tudo, não duvido.

Mas acredito que enquanto exercício estético, a desconstrução pede por alguns pré-requisitos ou por lições básicas. Outra analogia: é como implodir um prédio do jeito errado. A sujeira vai ser maior.

Para encerrar...

Enfim, eu poderia ter falado de músicos como Mutantes, Talking Heads, Tom Zé, Caetano Veloso (que depois de fazer uma música como Terra, teria aval para fazer mil Araçás-azuis!), ou de cineastas como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e Michael Haneke. Mas preferi citar artistas com cujas obras eu dialogo com mais conhecimento. Peço perdão aos que não estão familiarizados com os Crimson ou Lynch, mas fica a dica e a recomendação de dois mestres de suas áreas e seus estilos.

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