quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ensaio - Anos 70 na Cabeça

Texto e ilustrações: Rafael Senra
No 3o FELIT – Festival de Literatura de São João Del Rei – pude assistir a uma palestra de Frei Betto. Com muita propriedade e domínio do assunto, ele falou sobre o panorama brasileiro da década de 70, nos âmbitos político, social, e principalmente artístico. A coisa me pareceu tão instigante, que acabou gerando este ensaio.
Aqui na pensão onde moro, as idéias do Frei geraram discussões muito salutares, onde alguns poucos somente se atreveram a contrariar seus pontos de vista, muito bem defendidos, por sinal.
Sem entrar nesses méritos, me peguei pensando sobre a overdose setentista que anda rolando. Ora, mês passado fui em um evento sobre o Clube da Esquina em Ouro Preto. Ontem, estive em um festival que comemora a Poesia Marginal da década de 70. Daqui a duas semanas, vou ao Festival Música do Mundo que vai acontecer em Três Pontas, sul de Minas. Com um predomínio de artistas da década de 70, esse festival pretende recriar o tal “Woodstock mineiro”, que em 77 aconteceu no mesmo local. Anos 70 na cabeça! 
O “boom” de relembranças sobre os anos 70 me faz pensar, naturalmente, sobre nossa época. Hoje em dia, qualquer postura que leve em consideração as dimensões do sonho e da utopia, parece piada.
Vivemos em uma era de plena desesperança, onde a visão ciência tomou o lugar da visão religiosa; - se mostrando igualmente incapaz de responder aos anseios da humanidade, como um todo - as instituições derrapam nas incongruências do capitalismo; e nossos heróis, como bem disse Cazuza, morreram de overdose (no caso dele, de AIDS).
Essa é provavelmente uma herança das ambições da contracultura setentista. Provavelmente seus esforços são postos em xeque justamente por aqueles que julgam que suas práticas não estiveram à altura de suas utopias. Se pensarmos que o que foi feito tinha como objetivo a mudança do mundo, daí é inevitável afirmar que a geração de 70 efetivamente fracassou.
Entretanto, ao lembrar da fala do Frei Betto ontem, pensei em como a perspectiva derrotista sobre a década de 70 pode ser relativizada. Ele disse que se convence cada vez mais de que quanto mais um jovem sonha, menos drogas ele usa. Em seu raciocínio, o oposto procede; ou seja, quanto menos um jovem sonha, mais drogas ele usa. Por drogas, eu acrescentaria não só as ilegais e as inaláveis, mas também TV, jogos, fundamentalismos, enfim, qualquer tipo de escapismo da realidade.
Sonhar, na atualidade, parece algo patético, tão ridículo quanto o ideal hippie de “peace and love”, as calças boca de sino, cabelos compridos, ou as ingênuas baladas de amor das bandas da época. Sonhar parece algo tão deslocado quanto a psicodelia, os filmes de Godard e Antonioni, ou o amor livre.
A dimensão do sonho, e quaisquer adjetivos otimistas como afeto, alegria e amor, foram substituídos pelo cinismo e pelo desencanto. Esses sim, são bem mais fáceis de se concretizar que os elevados ideais dos anos 70. Basta cruzar os braços, e num segundo eles se tornam realidade.
As utopias, ainda que não concretizadas, motivaram a realização de várias ações muito positivas. As mulheres se tornaram mais independentes, as minorias conseguiram ter voz, e as guerras mundiais cederam vez a conflitos em um grau (aparentemente) menor. Não foram conquistas a altura do que foi sonhado, e certamente não atingiram seu ápice, mas estão aí de qualquer forma.
Nossa geração, porém, por mais que futuramente possa se orgulhar de ter sido coerente com seus ideais (melhor dizendo, com a falta deles), não vai poder, porém, se gabar de ter realizado nada relevante. Esse parece que vai ser o preço dessa integridade, travestida de apatia.

3 comentários:

Anônimo disse...

Caro Rafael,
todos nos estamos permeados de anos 70 de sonhos e ideologias. Cada um constrói o seu modo de perceber o "mundo" como pode ou como convém. Por exemplo, não sou fã de rock, mas adoro o pós-rock que é feito agora e ao meu ver mais rico e interessante, por ser tecnicamente mais complexo.
abs
Eric Ponty

Guilherme disse...

O texto ficou ótimo..Gostei muito mesmo...andei pensando sobre isso nos últimos tempos, até andei discutindo com nosso saudoso amigo Renan sobre essa geração..

gostei muito da ampliação do conceito de droga..

parabéns pelo sensível e bem escrito texto..me identifiquei, mais uma vez aqui nesse blog, com ele...

Ah, e o Frei Beto é foda mesmo..hahaha

abraços..

A dor do mundo disse...

Nossa, enfim um blog com algum texto que acrescenta. Tenho lido alguns que mais parecem um desabafo pessoal, puro sintoma remontado em palavras, ou, dizendo de outro modo, textos excessivamente narcísicos e pouco convidativos, ou “acrescenta-dores”. Porém, posto que isso também tem seu valor, mas enfim, o que quero dizer é que seu texto instiga a conversar. Bem, primeiro vou logo com uma crítica, afinal você é um literário, e eu, como sempre, ácido. Não use o termo "era" para diferenciar os anos 70 dos anos 10. Era mensura distâncias maiores entre tempos. Não concordo com a equivalência entre drogas e fantasias, pois a dimensão real a que a droga faz conexão a diferencia de outras fixações menos mortíferas. Agora, deixando a crítica de lado, que beleza citar Frei Betto, muito feliz da sua parte, leia um texto dele chamado "Um equilíbrio em questão", creio ser esse o título, se não for, o texto discute o termo cosmético, de cosmos, aquilo que dá a beleza e a idéia do homem enquanto uma extensão da natureza. Agora o mais louvável, e isso é digno de nota, é você ter ressaltados o poder que as utopias tem de construir efetivamente situações não tão idealísticas porém elementares e com um valor incalculável. Melhor sonhar em arranhar o céu, conseguir edificar algo, do que a paralisia e os braços cruzados. Bem, poderia elogiar-te ainda por muitas linhas, mas prefiro mesmo apenas marcar essa idéia. Formidável! Parabéns pelo blog muito original! Allan G.