sábado, 9 de agosto de 2008

Do porão, das memórias, para o Sebo

Esses dias, o ultimato da minha mãe selou de vez algo que sei que preciso fazer, mas que adiei durante anos e anos, desmotivado pela preguiça, pelo apego, pela nostalgia... Mas que agora se tornou inevitável:

Dar um rumo na minha coleção de gibis!!

Foto acima: As revistas que vão fazer alguém feliz num sebo, em breve. Vale lembrar que a foto não faz juz à quantidade de revistas que ali está representada.


Eu decidi vender todas essas antigas relíquias, pois sei que dificilmente as lerei novamente, pelo menos a maioria. Várias delas eu já li (sério mesmo) mais de dez vezes... É que eu adorava reler revistas, mesmo sabendo o final, ou as falas, de alguma forma aquilo me era muito prazeiroso. E quando eu descobria um truque novo de história ou desenho, e voltava a ler uma história antiga, podendo então enxergar um novo prisma, obter uma nova interpretação?... Ah, passado, época de tempo livre e preocupações frugais!

Minha mãe, como está de férias, se submeteu a dispendiosa tarefa de separar as revistas por nome, e numerá-las. Ela gosta dessa coisa de organização e arquivamento, então o fato de eu tê-la pedido para não fazer isso foi meio inútil. Esperei esta peneirada que ela fez para, então, dar meu último adeus à minha coleção, à este pedaço da minha vida, além de separar algumas preciosidades das quais não pretendo me desfazer.

Passei umas boas três horas dentro do pequeno quarto onde a coleção estava. Foleava algumas revistas, para ter certeza de que elas poderiam ser descartadas; já outras, jogava pro lado só de ver a capa. Muitas delas, eu já sabia o conteúdo só de observar. Foi surpreendente também o quanto eu me lembrava o nome de muitos desenhistas, mesmo não lendo aquelas revistas há quase uma década. Uma surpresa nerd em particular: Descobri um elo em comum com vários desenhistas que aprecio, como John Romita Jr. na época do Demolidor, ou Rick Leonardi no Homem Aranha 2099, e alguns desenhos da fase do X-men com Louise e Walt Simonson... São todos arte finalizados pelo grande Al Williamson. Eu sempre curti essas fases dos desenhistas, sem saber que esse arte-finalista tanto contribuiu para esta magia. Realmente, arte-finalistas são como os bateristas no mundo do rock: Seguram a onda sem levar o merecido crédito!

Essas horas foram realmente um mergulho no passado. Ao folhear algumas revistas, me lembrei do início da minha puberdade, na época em que estudei num colégio interno. Várias revistas, inclusive, tem meu número do colégio na capa, 32. Encontrei a primeira revista da Marvel que comprei: O crossover entre Homem Aranha e Super-Homem. Me deparei também com várias histórias que exerciam sobre mim um imenso fascínio na época, como se fossem vitrines para um universo paralelo. Ao vê-las ali daquele jeito, tão desprovidas do brilho que outrora tiveram, me senti crescido, não necessariamente maduro, mas bem distante daquele deslumbramento pueril.

Várias destas revistas eu adquiri quando estava descobrindo os prazeres do sexo solitário, entre meus 10 e 11 anos. No internato, havia uma espécie de câmbio negro de revistas pornôs, e todos disputavam entre si para ver quem já conseguia, ao se masturbar, emitir o líquido viscoso e gosmento que nossos livros de biologia diziam chamar esperma. Me lembrei de quando juntávamos, num local ermo qualquer, eu e meus amigos em grupos de quatro ou cinco, abríamos uma playboy no meio da roda, e começávamos, ao mesmo tempo e cada um por si, a deflagrar seus processos individuais e solitários de sexo, perdidos em devaneios, por algo que pouco compreendíamos. Me lembro que alguns de nós, trapaceando, cuspiam em sua genitália, para tirarem onda de que já eram velhos o suficiente para gozar de verdade.

Algumas revistas me lembraram essa época de fascinação com estes prazeres. Como a presença da gostozíssima Mary Jane Parker nas histórias do Homem Aranha. Alguns desenhistas, como Erik Larsen, desenhavam esta personagem com formas generosas e pouquíssima roupa. Foleando as revistas, me lembrei de como aqueles desenhos me atiçavam uma vontade proibida por algo que eu nem sabia o que era, mas já desejava ardentemente.

Os exemplares dos quais mais me desfiz nessa faxina foram as pequenas edições da Marvel e da DC. Decidi ficar com algumas por motivos afetuosos, como a coleção 2099 (os personagens Marvel no futuro), ou o exemplar de Arma X (quando Wolverine consegue seu esqueleto de Adamantium), algumas histórias do Thor, Capitão America, muitas do Demolidor, dependendo do roteirista ou do desenhista.

Não me desfiz de nenhuma HQ européia, mas as nacionais foram quase todas. Fiquei com algumas pelo simples fato de ter conhecido pessoalmente os artistas, ou pelas matérias e entrevistas no miolo. Algumas eu sentia que mereciam uma relida, outras eu decidi que vão estar melhor longe. Outra pequena surpresa nerd: Foleei um exemplar de uma coletânea nacional de HQ, me lembrando que, naquela edição, só havia uma história que eu gostava, com um desenhista que me impressionou. Me espantei ao descobrir que se tratava do astro Renato Guedes, brasileiro que está estourando nos states, em tempos de anonimato.

Quando foleei as infantis como Turma da Mônica e Pato Donald, aí sim, fui rodeado por uma espessa névoa de nostalgia pura. Se eu li intensamente as revistas de quadrinhos adultos, aquelas então eu quase engoli! Me deparei, por exemplo, com uma história do Zé Carioca, quando ele visita a fazenda da vovó do Pato Donald. A velhinha cozinhava um bolo de Maçã, e o papagaio passa a história inteira tentando comer o bolo, mas alguém sempre o atrapalhava. Essa história me rememorou algo meio sinestésico, sensorial, pois eu me lembrei, no ato, de como eu imaginei aquele bolo, de como eu também quis comê-lo... Ao folear aquelas páginas já amareladas, parecia que eu estava apreciando um bolo de verdade, tamanha a lembrança vívida que tive! Outra surpresa agradável: Alguém se lembra da edição da Disney em que o Pateta revive o mito de Hércules? Esta também não tive coragem de jogar fora!!

Separei também alguns livros infantis, cuja nostalgia me pareceu indescritível, como A Dama e o Vagabundo (este vinha com um vinil com a história – que eu decorei na época – e músicas), ou O Gato Xadrez. As revistas que sobraram formam ainda uma respeitável pilha, e são pérolas pinceladas do meu passado cultural. Percebi como aquelas histórias foram boas para mim. Ampliaram minha visão de mundo, me introjetaram conceitos e valores, localizações geográficas, me proporcionaram identificação com personagens, e me mostraram que eu não era assim tão maluco, pois cada simples paranóia que trilitava pela minha cabecinha jovem, alguém já tinha passado pro papel.

Foto acima: As revistas que ficaram


O(s) problema(s) é que minha mãe precisa de espaço na casa, eu preciso de dinheiro, e talvez alguém precise ler coisas novas, ou melhor dizendo, inéditas para algumas pessoas. Então, como nada se perde e nem se cria, mas se transforma, e o mundo é movimento (perdoem os clichês), então vai-se das minhas mãos toda esta coleção, mas que ainda (peço mais um perdão pelo sacadíssimo clichê) mora no meu... coração!

2 comentários:

debora disse...

Que bacana tudo isso que vc escreveu. Interessante esse processo de selecionar o que vai ir, o que vai ficar. Ao fazer a seleção rola esse reencontro com o passado, as lembranças...e acaba sendo um momento muito legal,mexer em tudo aquilo que estava há algum tempo guardado, reviver emoções Mas ao desapegar damos a oportunidade a outros de curtir tudo isso também.Parabéns pelo texto!

R@pH@&L disse...

Obrigado, Debora! A cultura é algo que não deve ficar estanque, enterrada, deve mesmo é circular entre as pessoas!
Como eu tb crio quadrinhos e música, to vendo se ponho coisas na net aos poucos, pq de certa forma sempre reti minhas produções tanto por apego, quanto por timidez de mostrar o trabalho. Mas já superei isso faz um tempo, e agora pretendo utilizar do mecanismo da net (alto alcance de pessoas à custo zero) pra fazer a coisa andar.
Abraços!