sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Resenha - A Estrada da Vida (Federico Fellini)


Picadeiros de outros tempos

Fellini e sua obra imortal, “La Strada”, são reminiscências de uma época quase esquecida.

Bem antes da era das imagens frias e artificiais dos monitores de TV e computador, bastava pouco para deslumbrar as pessoas. Pouco que, para elas, poderia ser mais que o bastante. Em um circo, por exemplo, se permitiam fascinar com as peripécias dos saltimbancos, perdiam as acrobacias de vista, se contorciam de tanto rir quando começava o número dos palhaços. Hoje em dia, parece um crime ser crédulo, dar um voto de confiança, e acreditar em algo além da tecnologia, este sim o maior totem de nossa era. Na verdade, a humanidade está carente de uma linguagem que fale aos corações; que transmita algo essencial, e que preencha esse tipo de lacuna emocional. Enquanto isso, os conglomerados e indústrias farmacêuticas vão bem, obrigado!


Poucos gênios puderam transcender esse caráter maniqueísta de nossa cultura ocidental, que divide qualquer fenômeno ao meio, para então depois abraçar uma das porções como válida, enquanto segue marginalizando a outra no processo. Tecnologia e espontaneidade, mente e coração; haveria um bom e ruim nessa história? Porque a integração não é uma alternativa? Estamos condenados a viver em um mundo de franksteins?


Corta. Próxima cena, 1954, Itália, provavelmente próxima da cidade de Rimini. Um, dois, três, ação! Em meio a um empobrecido país do pós-guerra, um sujeito chamado Federico Fellini finaliza as filmagens de “La Strada” (no Brasil, “Estrada da Vida”, ou somente “A Estrada”). Quando o cineasta italiano era criança, se deslumbrou com a passagem de um coloridíssimo circo por sua cidade. O impacto dessa experiência o perseguiu por toda a vida, e fez eco em suas geniais produções, como “Os Palhaços” e “Amarcord”, verdadeiras odes ao espírito circense.


“La Strada” é talvez o seu filme de temática de picadeiro mais emocionado. Talvez seja um desafio sem precedentes para os jovens de hoje assistir à essa película com profundo interesse. Fellini aqui passa longe de toda a atmosfera do que se entende hoje em dia por circo (leia-se “Cirque du Soleil”), e o despe de qualquer glamour. Ainda assim, ele nos mostra de que isso pode ser fascinante; afinal, a embalagem não pode substituir o conteúdo.


No filme, Gelsomina, interpretada pela esposa de Fellini (a estranhíssima, porém cativante Giulietta Masina), é vendida para o artista mambembe-itinerante Zampanx (Anthony Quinn, na época que se afastou das produções hollywoodianas, em bela forma). Juntos, percorrem várias cidades miseráveis, e apesar dos constantes atritos oriundos da falta de tato de seu tutor, estão unidos pelo amor a arte. O diretor pauta pela cartilha do neo-realismo italiano do estilo de Visconti e DeSica, mas em vez de focar nas mazelas econômicas e sociais, prefere canalizar sua paixão pelo escapismo do circo. Outro detalhe é que este pode ser considerado um antepassado do gênero “road-movie”, repleto de locações e tomadas externas.


Gelsomina e Zampanx tem uma dinâmica aparentemente de oposição. O masculino reflete as espectativas da sociedade, acumulação de capital, prazeres mundanos, introversão e insensibilidade. O feminino parece deslocado, a espontaneidade só é aceita para fins lucrativos, e toda a arte genuína que se afaste desses fins é solapada e sufocada. Por fim, observamos Quinn/Zampanx desnorteado, ao perceber que seus valores rústicos e brutos são incapazes de lhe preencher e de lhe proporcionar plenitude.
Fellini não utiliza seu cinema como um fim em si mesmo. Sua câmera funciona apenas como um instrumento para focalizar o ser humano. A mente se torna um farol para o coração, e não seu substituto. Não existem em “La Strada” elementos familiares aos espectadores do século XXI, como efeitos especiais, cores ofuscantes, e atores que parecem saídos de catálogos de moda. Tudo ali fala com uma outra porção nossa, o essencial não se prende a visão, e o superficial é apenas uma pista.


O grande diretor italiano nos abre uma janela para uma arte quase esquecida, de tempos mais duros, porém mais espontâneos e menos virtuais. Se “todo artista tem que ir aonde o povo está”, como cantou Milton Nascimento, isso não é diferente nos dias de hoje. Pois graças aos DVDS, os artistas podem ir onde as pessoas costumam não abrir mão de estar, seus lares. E quando chegam, estão enfeitados por toda a parafernália de efeitos que as novas tecnologias podem oferecer.


Apesar da frieza dos espetáculos nos palcos das telas de plasma, felizmente, ainda restam crianças (jovens e adultas, ora bolas, nem todo adulto precisa ser necessariamente velho!) que querem ver calor, suor e arte de verdade. Será que tem algum circo na cidade essa semana??



Título:
A Estrada da Vida (La Strada, Itália, 1954)
Direção: Federico Fellini
Elenco: Anthony Quinn, Giulietta Masina e Richard Basehart



2 comentários:

Bond disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fernanda disse...

Rafa, assista "Terra de Ninguém" (um filme que tem como cenário uma trincheira entre a Bosnia e a Servia, na época da guerra)
e me faça uma resenha?
(: