sábado, 24 de novembro de 2007

Notas Sobre Carlos Castañeda e o livro "Uma Estranha Realidade"

Parte 1 – Objetivos

Essa série de textos que pretendo escrever tem como objetivo a reflexão por meio dos ensinamentos do feiticeiro Don Juan ao seu discípulo mais ilustre, Carlos Castañeda. Este último escreveu uma série de livros, nos idos dos anos 70, que o tornaram famoso, onde ele relatava detalhadamente todo o período de aprendizado que ele tivera ao lado de Don Juan.
Castañeda é antropólogo, e esse elemento faz-se notar em toda a riqueza de detalhes que permeia o texto. Por outro lado, o texto não é tão técnico, pelo contrário, bem acessível, e isso foi um dos detalhes que fez sua série de enigmáticos livros se tornarem best-sellers. O estilo de escrita, inclusive, lembra muito o de Paulo Coelho no início da carreira de escritor. Coelho já se confessou grade fã da obra de Castañeda.
Porém, Castañeda é menos sensacionalista que seu “discípulo” brasileiro, no sentido de que várias passagens são bem ácidas e até chatas, as vezes, no excesso dos detalhes. As obras pretendem retratar todos esses minuciosos detalhes, e é ao se fixar nisso que o autor esquece da estrutura narrativa, início meio e fim, etc. Isso praticamente não existe nos livros. O que vemos ali é um apanhado de situações pelas quais Castañeda passou, com o objetivo de se tornar um homem de conhecimento.
Enfim, isso é um pequeno resumo de quem é Castañeda e o que eu penso da sua obra. Eu pretendo escrever sobre os ensinamentos de Juan, especificamente. Talvez, compara-los com ensinamentos orientais, e de outras correntes, como ocultismo, hermetismo, etc. A parte dos chás, das misturas que ele diz serem fundamentais (sobre os aliados, o fuminho estraído de cogumelos e o Mescalito (Peiote)) eu não pretendo abordar, porque acho que não são experiências que precisamos pensar e analisar, apenas viver. É daí que vem o seu poder, da vivência direta, sem rodeios.

Parte 2 – A Erva do Diabo

No momento em que escrevo esses textos, o livro “A Erva do Diabo”, que é o primeiro da trilogia de Castañeda (respectivamente, A Erva do Diabo, Uma Estranha Realidade, e Viagem a Ixtlan, e posteriormente ele escreveu outros) não está mais em minhas mãos. Portanto, falarei menos, e de forma menos detalhada sobre ele. Até porque estou achando “Uma Estranha Realidade” bem melhor que esse primeiro.
A Erva do Diabo trata do encontro de Castañeda com Juan, e do contato que ele tem com os aliados. Os aliados são (pelo menos no primeiro livro) três substâncias que podem levar alguém a se tornar um homem de conhecimento. São eles, o fuminho (do gênero Psilocybe, feito com cogumelos), estramônio (Datura inoxia) e o Mescalito (Lophophora williamsii, mais conhecido como peiote). Juan diz que o fuminho serve a pessoas de natureza mais quieta, enquanto que Mescalito é melhor para pessoas de temperamento mais agitado. Eu resumi e tornei superficial o ensinamento, mas basicamente, é como se o fuminho fosse mais adequado a pessoas mais observadoras e passivas, já o Mescalito funcionaria melhor para pessoas participantes e ativas.
O ponto que mais me chamou a atenção no livro foi quando Juan fala sobre os quatro inimigos que um homem tem que enfrentar para se tornar um homem de conhecimento. O primeiro deles é o medo, que é um fator que paralisa todos aqueles que adentram a senda do desconhecido e do místico. Nada mais normal, visto que os fenômenos ocultos ocorrem em uma esfera sutil, e não podemos percebe-los a olho nu.
O medo impede o homem de ver com clareza. Porém, quando esse homem estuda, e se esforça para superar esse medo, é justamente a clareza que advém disso que se torna o seu segundo inimigo. Porque o medo tem seu lado positivo ao manter-nos alertas dos perigos que nos rodeiam. Entretanto, ao nos livrarmos dele, a autoconfiança que surge com certeza paralisa o homem em determinado momento, e ele vai ter que aprender a se livrar do problema para prosseguir.
Ao vencer a clareza, e perceber que para prosseguir nessa senda, é necessário temer e ser confiante ao mesmo tempo, o homem adquire poder. Mas essa benção, na verdade, se torna o terceiro inimigo rumo ao conhecimento: O poder. Afinal, grande sábio foi aquele que disse que o poder corrompe. E a sensação de onipotência afasta o homem do caminho do bem, pois para se ter tudo que quer, ele vai inevitavelmente passar por cima do respeito a outras pessoas.
Mas se esse homem poderoso puder ser humilde e bondoso o suficiente para usar essa dádiva tão arduamente conquistada em benefício de seus semelhantes, outro problema surgirá. Esse homem já terá lutado tanto, já terá cumprido tantas provações, que já estará velho. Essa velhice é o quarto e último inimigo, porque quando o dever pessoal do conhecimento for atingido, o homem vai ser atraído pela sensação de querer descansar e entrar em comunhão com as forças superiores. E isso vai ser um empecilho para esse sujeito ser considerado um homem de conhecimento.
Isso resume o principal ensinamento que absorvi de “Erva do Diabo”, fora algumas coisas menores que não me recordo agora, e que pretendo atualizar tão logo me venha a mente.

Parte 3 – Uma Estranha Realidade - Introdução

No momento exato em que escrevo isso, acabei de ler o segundo livro da primeira trilogia de Castañeda. Dessa vez, porém, não vou falar dele como falei do primeiro livro, de forma tão rasa. O livro ainda está em minhas mãos, e pretendo dar uma peneirada em alguns pontos dele que julgo dignos de reflexão. Diferente do primeiro livro, que apesar de ser o mais famoso, tem uma narrativa que se prende a fenômenos fantásticos, como Castañeda se encontrando com Mescalito (como sendo uma entidade viva, ou pelo menos se assemelhando a isso), ou se transformando (transfigurando) na forma de um corvo.
Esses acontecimentos fantásticos têm muito a ver com tudo o que já li na literatura latino-americana, esse universo fantástico convivendo com o real é corriqueiro em nosso continente, mas em menor grau no Brasil. Eles tem um efeito legal na literatura de entretenimento, mas no relato que se pretende antropológico, ou algo próximo a isso, parece estranho. São preposições que desafiam nossa noção de realidade, portanto não é com facilidade que vamos engolir isso sem pensar que não se trata de uma estratégia de marketing, ou de uma falsa literatura.
Mas no segundo livro, os ensinamentos de Don Juan a Castañeda se convertem em verdadeiras jóias. Todos eles são passíveis de serem relacionados com ensinamentos de outros cultos e religiões, porém a terminologia é toda ligada ao mundo de Don Juan. Um pequeno exemplo: O que os kardecistas chamam de espíritos, Juan chama de aliados. Talvez não sejam a mesma coisa, mas é possível enxergar uma relação entre eles, diferenciados apenas por termos.
Eu percebi, fora a diferença da terminologia, conceitos que se assemelham a várias leituras que já fiz, do ocultismo à livros do Osho, do que prerroga James Redfield em “A profecia Celestina” até o kardecismo, e por aí vai. Meus textos se consistem em tentar relacionar esses conceitos, e assimilar o que Don Juan ensina. Enfim, como já disse antes e ressalto novamente, farei essa análise mais detalhada com esse segundo livro por dois motivos: O julgo muito mais relevante (e bem escrito, mas isso é outra história) que o primeiro, com ensinamentos mais adaptáveis ao meu tipo de vida atual, e o segundo motivo é que é o livro que tenho em mãos (consegui também “Viagem a Ixtlan”, o terceiro livro, cuja leitura iniciarei em breve).

Parte 4 – Uma Estranha Realidade
(obs. Se o leitor desses textos não leu os livros de Castañeda mas pretende faze-lo, aviso que pretendo contar algumas passagens da narrativa (Spoilers). Mas creio que aqueles que estão interessados fundamentalmente nos ensinamentos não vão se importar, porque com exceção do aprendizado e das mensagens, a narrativa não guarda nenhuma reviravolta impressionante.)

Don Juan diz que Castañeda se assustou com os ensinamentos dos anos passados (no livro “A Erva do Diabo”) e largou tudo (no fim do livro). Ele fez isso, segundo Juan, porque se sentia muito importante. “A sensação de importância faz a pessoa sentir-se pesada, desajeitada e vaidosa” diz Juan.
De acordo com os preceitos de algumas escolas de Ioga, o que faz uma pessoa se sentir estressada é o seu ego. Eu não tenho conhecimento técnico sobre isso (creio que na escola do mestre DeRose algo desse tipo seja tratado), mas basicamente o estresse de cada um estaria ligado ao quanto o sujeito se importa com seu bem estar único, ou seja, a grosso modo, o egoísmo de cada um pode ser medido pelo seu estresse.
O ser iluminado está conectado com o todo, e por isso ele tem consciência de si próprio na mesma medida da consciência que tem do mundo ao seu redor. Ele sabe do que precisa para seu bem estar enquanto indivíduo, mas também sabe do que o mundo ao redor precisa também. Assim, ele medirá seus atos para não ferir a si mesmo em detrimento do próximo, mas não vai desrespeitar o ambiente ao redor. E não vai se desgastar mentalmente, pois ele não está conectado com seus pensamentos, sua bagagem de vida, seus desejos e medos, mas sim com o mundo ao redor.

“Ver”

O livro todo gira em torno da atividade de “ver”. Don Juan diferencia o ato de “ver” do ato de “olhar”. O termo “ver” aparece assinalado toda vez que é citado. Eu interpretei o “ver” como um estado de consciência diferenciado. No livro “A Profecia Celestina” (REDFIELD, James. A Profecia Celestina. 33ª edição. Editora Objetiva. Rio de Janeiro, 1993) o autor ensina, na terceira visão (nove visões são apresentadas em todo o livro) como mudar a percepção para enxergar a aura das coisas.
A aura seria como um feixe de luz ao redor de todos os seres vivos. Algumas pessoas tem um nível de sensibilidade elevado o suficiente para enxerga-la. No livro “Mãos de Luz”, de Bárbara Breenan (não tenho os dados no momento) a autora cita que possuia esse “dom” de perceber a aura desde a infância. Em “Profecia...”, o autor ensina exercícios para que possamos enxergar essas energias. Eu mesmo conheci pessoas que leram “Profecia...” e conseguiram enxergar. Vou contar uma história que ouvi:
Um conhecido meu (que não vejo faz muito tempo) participou de uma prática da ordem rosacruz, e ele conseguiu enxergar a aura de uma mulher. Era sua companheira na atividade, uma senhora de certa idade. Como ele era adolescente na época, a diferença de idade, aliada a simpatia da mulher, fez com que ele sentisse um carinho imenso por ela, que surgiu naturalmente. Se o parceiro dele fosse um homem, ou uma mulher da mesma idade, o sentimento teria sido outro, talvez de amizade, camaradagem, ou atração sexual, algo talvez mais social, ou superficial.
Eles participaram de uma prática, que não me lembro como era e nem para que, mas que envolvia tipo uma dança uma prática corporal... E no meio da pratica, o meu conhecido, envolvido em um sentimento de muito afeto por aquela senhora, conseguiu enxergar a aura dela. Ele não quis me descrever a visão que ele teve para não me prejudicar a enxergar depois (segundo ele, eu poderia ficar tentando ver o que ele viu, e isso atrapalharia), mas ele disse que parece um “efeito especial” de cinema!
Histórias a arte, vamos voltar a Castañeda, Juan diz que quando ele (Juan) vê, ele percebe uma “luz” em volta das pessoas, e por essa luz ele distingue estados de espírito de quem observa. Isso tem a ver com os livros “Profecia...” e “Mãos de Luz”, parece ser o mesmo fenômeno. O que Juan acrescenta, é que algo importante sobre isso gira em torno do abdômen, ou seja, na barriga. Isso não é citado nos outros dois livros, e é algo muito importante, que relacionei com o reiki.
Juan diz que as pessoas enfraquecidas deixam escoar a energia pelo abdômen (ele não se refere a luz como energia, mas não lembro o termo exato), e que é por ali que os inimigos podem dominar uma pessoa. Os inimigos podem ser feiticeiros, pessoas mal intencionadas, ou até espíritos. Eu fiz então a relação com o reiki, porque quando alguém (ou nós mesmos) aplica o reiki, o ponto mais complicado é abaixo do peito, na região próxima ao diafragma. Quando aplicaram reiki em mim, esse ponto específico me causou um mal estar grande, que quase me fez chorar copiosamente. O amigo que me aplicava também sentiu uma angústia nesse ponto exato, e depois conversamos surpresos sobre isso.
Esse ponto específico é chamado por Juan de brecha. Se a pessoa se sente bem, segura, bem disposta, e principalmente confiante, a brecha não existe, e o campo fica fechado. Mas o medo e a insegurança (bem como depressão, angústia, sentimentos negativos) abrem a brecha, e nos deixa vulnerável a ataques psíquicos, ou algo assim. No Ioga, muitos movimentos são feitos com a mão no abdômen, e eu creio que está de alguma forma ligado a isso. Essa questão se relaciona também com a proteção psíquica, da qual vou tratar depois.
“Todos os homens estão em contato com tudo o mais, não por suas mãos, mas por meio de um punhado de fibras compridas que saem do centro de seu abdômen”, diz Juan.

Vontade

Quando Castañeda encontra Sacateca, um amigo de Juan, este o enfeitiça. Acho que o feitiço é um processo bem racional. Sacateca chega para falar com Carlos (Castañeda), e esse se apresenta bem simpático, mas com um objetivo implícito de interroga-lo sobre assuntos ocultos. Sacateca, como provavelmente enxerga a aura, percebe a intenção de Carlos e o enfeitiça.
Esse trecho é muito interessante. Sacateca começa, primeiro, a imitar um bêbado. Creio que fazendo isso ele manipula toda a energia do momento, e o ambiente fica com um aspecto irracional. Carlos fica desconcertado. Além do mais, não se discute com crianças, velhos e bêbados, e Carlos queria discutir. Então Sacateca abriu mão da pose de “bruxo”. Depois, ele começa a jogar o discurso de Carlos contra ele mesmo, seguindo um método bem platônico (creio que é de Platão, ou Sócrates, o método de jogar contra o oponente seu próprio discurso, por meio de perguntas – perdoem a ignorância!) e desconcerta de vez o pobre Carlos, que não vê alternativa senão ir embora.
Juan explica que Sacateca “fé-lo parar pela vontade dele”. É aquela história, se você chega pra alguém afirmando que um pingüim e um urso panda são o mesmo animal só porque tem as mesmas cores, qualquer idiota sabe que você está falando um absurdo. Mas dependendo da forma que você fala, a entonação, e a disposição (vontade), você pode abalar um interlocutor. Você pode falar qualquer besteira e sobrepor a verdade de outro apenas pela vontade.
No ocultismo, isso se chama lei da equidade. O bruxo mais poderoso não é aquele que está do lado do bem, mas o que tem a maior fé, a maior concentração e vigor. Creio que a vontade se encaixa nessa idéia.

Um comentário:

Anderson Sirini disse...

Achei muito bom mesmo os comentários que você fez sobre esses dois livros!